outroscaminhos @ 23:34

Ter, 03/06/08

Ressurgiremos

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

Sophia de Mello Breyner
[Livro Sexto, 1962]

 

...e não desistam!!!

 

AC




outroscaminhos @ 22:54

Ter, 03/06/08

 

Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.

(...)

- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...

(...)

- O que é que "estar preso" quer dizer - disse o principezinho?
- É a única coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...

(...)

- Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor...Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
(...)

- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.

(...)

Foi assim que o principezinho prendeu a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...

(...)

E então voltou para o pé da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com aminha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...

(O Principezinho - Antoine de Saint-Exupéry)
AC
 

música: http://www.youtube.com/watch?v=sogKUx_q7ig&feature=related


outroscaminhos @ 20:51

Ter, 03/06/08

"Tudo vale a pena se a alma nao é pequena"

Mas a alma não abarca o mundo e claramente, foi um esforço inutil o meu ao escrever textos neste blog.

 

Não valeu a pena.

 

Este é  último texto que escrevo.

 

 

Maria Ines




outroscaminhos @ 13:07

Ter, 03/06/08

O fim é sempre estranho. Nem sempre é doloroso e nem sempre é clasutrofóbico, mas é sempre uma brisa quente e livre de uma noite de Verão de lua cheia. É um mistério, um paradoxo.

O fim é sempre um começo. De algo. Mesmo a morte é um começo , enterram-se lágrimas inúteis e resgatam-se para a vida novos hábitos impossíveis de serem renegados. A morte é um começo para os vivos que ficam e vêem um barco – mais um – afundar-se no mar , tendo consciência que nunca mais voltará a tocar a terra que guardou o seu sangue. O fim é sempre o começo de algo, nem que seja do nada. Ainda não é Verão e a noite é escura como uma gruta grande, fria e estranhamente bela. É a mistura do caminho que ficou para trás e o caminho que ainda pode ser escolhido. É a escolha entre a memória e o coração futurista. O fim é indomável, mesmo quando parcialmente previsto, deixa um olhar de espanto e estranheza no céu azul aberto enclausurado por nuvens cinzentas de chuva.
É verdade, este é o fim. Do ciclo, da era, desta responsabilidade. É o fim, o mais esperado, o mais desejado. Este é o fim, que salvou mentes desesperadas da desistência, que deu alento e conforto aos que nunca descansam. Este é o fim, e no entanto, há quase a vontade de começar de novo só por uma questão de medo. O desconhecido é sempre tenebroso e só sabe enfrentar dignamente o medo e a hesitação os que sabem que nada são.
O fim é sempre algo misterioso, sim, mas não começava nada de novo. Há que enfrentar o medo e percebe-lo. Alem disso, nem sequer me dói este fim. Sonhei com ele demasiadas vezes, salvou-me da escuridão várias luas sangrentas. Tudo o resto é uma preguiça emocional de dizer que acabou. A despedida implica gasto de energia ( inútil, sim, talvez inútil, porque está implícita no ângulo do sorriso que se afasta para a penumbra). Sentimentalismo são sempre inúteis. As  minhas palavras não tem magia, por isso cito o poeta que faz do poema uma flauta mágica: O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.”
 

Maria Inês ( L.C.)



Depois de concluirmos uma etapa, e porque a vida não pára, chegam novas aventuras e novas descobertas por novos caminhos....
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