outroscaminhos @ 16:40

Sab, 05/01/08

   Estava melancólico. O erro duramente cometido estimulou-lhe a maresia triste que carregava sempre no peito. E durante o pôr-do-sol, o que mais lhe rasgava a alma desenfreadamente eram os destroços trazidos pelo seu mar pessoal, já desbotados e gastos.
   Talvez por isso veja o erro em tudo o que o rodeia, porque o erro está nele. É parte dele. Relembrá-lo era uma tortura emocional desgastante.
   Desejava tanto, tão intensamente, viajar para fugir. Queria escapar, de modo fluido, à coragem gloriosa. Mas não lhe era possível fugir de si próprio. Encontrar-se-ia sempre, sempre, como uma história de contos de fada triste.
   Trazia consigo o espelho que fragmentou em nome de uma paixão menor. Tão menor e inútil, tão pouco que este pensamento deixa-lhe marcas profundas no rosto pelas lágrimas que não consegue chorar. Que secaram, porque a grande dor carrega nas suas asas negras a indiferença quente. Era tão efémero como as flores, não controlava os momentos de Sol.
   Errou. O mundo é uma sombra e ele é a sombra que reflecte uma parte mínima e insignificante da sombra. E é sombra de si próprio, daquilo que já não é.
   Olhou para si de fora, como se um estranho fosse. A alma reentrou no corpo, acordou do sonho agudo que teve enquanto os olhos abertos, escancarados, procuravam ajuda no mundo. E aquele momento projectou-se de tal forma na Natureza que passaram a existir duas dimensões distintas nele: a que erra e a que castiga a que erra. Ele era o seu deus. Porque errou mas soube remediar modestamente o destroço naufragado em que se tornou.
 
 
Maria Inês


Depois de concluirmos uma etapa, e porque a vida não pára, chegam novas aventuras e novas descobertas por novos caminhos....
Janeiro 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
12

13
15
17

20
22
23

27
30
31


Encontre o caminho
 
subscrever feeds
blogs SAPO