outroscaminhos @ 18:30

Ter, 20/11/07

A alma escorregava-lhe pelos dedos, pelas mãos. Como se fosse água. Uma água meio limpa, meio suja. Dependia do angulo da sombra que o sol fazia.
E era essa sombra a vida dele. Vivia dela, nela e para ela. Ele era a Sombra, a ausência de luz, era tudo ele próprio...
E sentia-se , com uma indiferença perturbante, a desaparecer suavemente pelos dedos. Custava-lhe tanto... e não lhe custava nada. O que lhe doía era a dor que não sentia mas que sabia que tinha. E era esse sentimento de consciência daquilo que não existe, mas que está a acontecer, que tanto o massacrava. Porque ele sabia...
O quê, exactamente, eram ideias quebradas, ténues que era incapaz de definir, de limitar. Não conseguia sequer partilhar isso consigo próprio porque o outro ele estava a findar devagarinho. Se ao menos acabasse depressa, amanhã seria outro , outro com uma memória física inútil.
Talvez por isso as lágrimas se tenham tornado ilegítimas e a vida tão valiosa. É tudo o que tem. Sim, este labirinto sem saída alguma onde brincam com ele como se fosse um fantoche , é tudo o que lhe resta. Mas ele garante que isso lhe basta para sobreviver, porque ninguém lhe arranca o coração. Ninguém, nem ele – que secretamente, às escuras de si próprio, experimentou várias vezes em momentos de lucidez ou de dor imensa. Ele reconhece que é já tarde para sair do labirinto, para recuperar a alma que continua, a um ritmo geológico, a escorregar-lhe....
Por isso, com toda a paciência universal que aprendeu a ter, ele espera que aquelas paredes se auto-quebrem com uma ajuda inconsciente dele – a consciente prende-o ali mais ainda.

Enquanto está fechado, a alma escorre-lhe... E isso dói-lhe desumanamente. Exprime-se através de gritos mudos. Gastou-se a si próprio a gritar. Mas não caiu no desespero, não ainda. O relógio psicológico ainda não parou e, por isso, há uma oportunidade que ainda não morreu para ele. Pergunta-se, porém, até quando aguenta as revoluções roucas que faz para se libertar do calor que lhe derrete a alma.

Inês



Joana Beites @ 21:38

Qui, 22/11/07

 

Que bem que tu escreves ...


Continua assim :) **

Depois de concluirmos uma etapa, e porque a vida não pára, chegam novas aventuras e novas descobertas por novos caminhos....
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